quinta-feira, 22 de junho de 2017

Armada

  Até aos dentes. Só saio armada, a partir desse segundo de promessa.  Atravesso o portal da  indiferença,  com um cinto coberto de lâminas afiadas, coturnos de couro impermeável, calçada com meias de lã sem bordados, lisas, verdes de guerra.  Armada do topo da cabeça até ao calcanhar. Armada para não sentir o sopro do frio da imensa noite, entre a orelha e o pescoço, nem a dor de andar por caminhos que nunca foram asfaltados. Com uma mesma roupa para chuva e sol, dias de frio e calor escaldante. No bolso da jaqueta recortada de zíperes, só uma foto minha, de quem eu era antes da saída. Um rosto pacífico, de melancolia herdada, olhos grandes de querer ver o mundo além do mundo. Montada em veículo potente, que corte todos os carros em qualquer rodovia. Eu, armada, ultrapasso o exército covarde deles.

  Armada com um calendário de dias que se movem antes que eu os alcance,  que me desobedecem, me desafiam, me irritam, me entristecem e depois, me dão presentes que eu jamais pensei que merecesse. Armada de desejos que não acabam e que mesmo depois de realizados, nunca serão satisfeitos. Armada de vontade prolongada, imortal, até o dia de não querer mais. Não posso  estar vulnerável neste mundo de guerra lá fora. A arma não é branca, não é alimentada por pólvora, tampouco explode construções ou dizima comunidades. Armada de vontade, coragem, de letras num punhal que brilha até cegar, mas não corta coisa alguma. E no bolso traseiro da calça, uma foto 3X4 do filho que eu não cheguei a conhecer, mas amei, a herança que eu perdi enquanto escalava uma montanha. Desde lá eu nem tive tempo para chorar. Disseram que eu era forte, mas não sabem que eu ainda comemoro o aniversário dele todos os anos e lamento, no mesmo dia, sua partida.

  Armada com um mapa na mochila, uma bússola na algibeira e um outro retrato do rosto do amor, quando ele existia. Porque devemos ter um motivo para viver se, ainda armada, uma bala ferir e nos fazer ir ao chão, neste instante, o amor volta novinho, porque só ele pode contra a desistência para a morte. Só o amor consola na derrota; no meio de uma batalha vermelha, o amor azul que morreu, ressuscita para nos salvar da dor e da queda. Ele volta gentil, como da primeira vez em que me beijou. Vai me destruir, depois, mas antes vai me levantar, eu conheço o ciclo.

  Armada até a sola dos pés, que pisarão o solo sem dor, mas também sem o prazer de roçar a pele na grama orvalhada ou na terra marrom escura, antes da estiagem. Mais uma foto escondida, a de uma casa, com cercas e flores de desconhecidos que dizem parentes distantes, afinal a gente tem que estar armada de passado também, de ancestralidade que buscamos honrar, mesmo que não mereçam. Os mortos sempre são melhores, porque silenciados, são aquilo que projetamos para eles. No altar ou na arena, são deuses de guerra e bondade.

  Armada com as verdades que fui juntando e, mesmo assim, perdendo pelo caminho, uma está quebrada, arrancaram a cabeça de uma outra, a terceira está pela metade, mas com um furo no fundo, que em alguns dias, imagino, a fará completamente esvaziada, uma outra que escondi na bolsa com cadeado e a deixei inegociável, sem concessões, mas que agora, assim, sem arranhões não parece tão bonita. Armada das minhas verdades provisórias, porque desconfio que não durem até a chegada. Vou recolhendo possibilidades de novas, pelas casas onde durmo e que abandono antes de acordarem para me oferecerem o café ralo da manhã. Só um retrato de santo, que eu tiro de dentro da minha camiseta, no escuro e com quem converso com intimidade humana, quando todos já foram embora.

  Armada com fórmulas letais, descobertas enquanto tentava criar uma cura, uma vacina, prolongar as vidas que sempre me pareceram tão importantes. Veneno produzido em um laboratório de boas intenções. Um cálculo errado e matamos mais rápido, vulnerabilizamos, quando queríamos proteger. Armada de erros, depois de sucessivas tentativas de acertos. Armada de culpas, incertezas e palavras que traem, a mim que falo e a eles que escutam, porque foram usadas fora de contexto. Enunciados potencialmente destruidores; mulher-bomba. E um retrato de um lugar idílico, enrolado no junto ao peito, com um oceano verde em que eu nunca me molhei, mas sonhei.

  Amada, eu disse, até aos dentes. Eu só saio se for amada. Só atravesso o portal da apatia se estiver amparada de mim mesma e do meu amor,  completa e irreversivelmente amada. Nenhuma bala tingirá  meu corpo de vermelho, nenhuma palavra me matará, nenhuma verdade minha ou deles me submeterá, se eu estiver amada. Posso sucumbir aos venenos, poluentes, balas furiosas e golpes de punhal dilacerantes ou às lâminas afiadas das facas, mas se for amada, resisto a cada dor com o mesmo rosto melancólico de antes de partir e com olhos grandes, sedentos de um depois. Porque sou amada, é essa a minha única proteção possível nesses dias difíceis, de batalhas por nada.



quarta-feira, 21 de junho de 2017

Sacola de ausências

   Cinco da manhã de segunda-feira, o cabelo molhado carimba gotas no sofá bege, uma luz  acesa no final do corredor e o dia cinza claro, apontando no telhado da varanda vizinha,  a casa volta a ser silenciosa de gente de novo, uma só pessoa não é capaz de ocupar os silêncios de um apartamento, mesmo quando ele é muito pequeno. Poderia dormir mais duas horas, mas já está desperta demais para voltar à cama, aperta a caneca com a estampa de uma árvore de natal, com as duas mãos, e toma o primeiro gole de café do dia. É junho lá fora, mas nas mãos é dezembro, dia 26. Daqui a pouco os cães voltam a latir, os portões voltam a ser abertos, os carros saem das garagens e do feriado só algumas fotos e vozes distantes. Dezembro acabará antes do cabelo estar seco de novo.
  Tem duas horas para dormir, mas prefere sonhar no sofá com o café na caneca de natal, sonha com o tempo em que, na rua, todos os cachorros tinham dono e ela era a dona deles. Quando amarrava o casaco na cintura, porque só sentia frio depois do banho e descia a rua, saltando as linhas no cimento.

  Quando foi que começou a não se importar com as linhas? Quando foi que passou a andar como os outros? Nós virávamos a esquina, de olhos fechados ou de costas, sem termos medo de nos chocarmos com algum carro que viesse do outro lado, hoje não atravessamos o corredor sem parar antes de cada porta, para não trombarmos com ninguém. Não é cuidado, é medo. Não era coragem, era entrega. Comíamos fruta com sal, jogávamos as cascas no quintal e agora não usamos mais saleiros e as cascas vão para o plástico azul ou preto. Tínhamos piolhos, carrapatos e um curativo, atadura ou gesso, hoje só band-aids, depois dos sapatos novos.
  Esfrega as pontas dos cabelos para pararem de pingar, a madrugada gelada faz lembrar tanta coisa, por que no inverno as lembranças chegam mais quentes? Eles foram embora e deixaram a roupa de cama esticada, como se voltassem à noite. Não voltam não. As camas lisas que uma pessoa sozinha não pode amassar, mesmo que os lençóis sejam muito finos.

  As madrugadas de despedidas são tristes, mas são menos longas que as das esperas. Ir dura menos tempo do que chegar. Logo o relógio marcará sete horas, mas se estivesse esperando por alguma chegada, o café da garrafa acabaria,  o cabelo ficaria seco e grisalho, as correspondências se acumulariam na caixa, o inverno chegaria e iria embora e a espera ainda estaria instalada no sofá bege, dividindo o cobertor vinho com ela. Eles chegarão em casa, quando no apartamento, do qual partiram, já não tiver mais nenhum vestígio deles; é fácil apagar marcas visíveis, as manchas da parede, os fios de cabelo no ralo, o cheiro do perfume deles: vassoura, pano molhado, detergente neutro e janelas bem abertas. Mas as marcas escondidas nunca se revelam para uma só pessoa, mesmo que sejam muitas, uma pessoa sozinha não pode enxergar atrás de todos os móveis, suspeita da marca, entende a marca, mas não a descobre.

  Vai servir mais café e pisa em um milho que sobrou da pipoca de domingo à noite. Toma o café e se lembra da sacola com restos de milho e algumas pipocas em que o homem guardava suas roupas. Era no apartamento da frente, do outro lado da cidade, ia para lá para brincar com a filha da moradora nova, nem se lembra do nome delas, nem do número do apartamento, mas a sacola do homem sempre chega. Ele era tio da menina, sempre o via estacionar, no final da tarde, o carrinho de madeira com a sucata que recolhia durante o dia, em frente ao prédio, mas nunca o via no apartamento delas. Mas num dia ele esteve lá para buscar alguma roupa e a mãe e a avó da vizinha colocaram as peças numa sacola branca fina, quase transparente e, no fundo, os restos de pipoca. A menina não falou com o tio, ele não tomou café ou comeu bolo, como os  tios da visitante faziam quando iam na casa dela. Só buscou as roupas, trocaram algumas palavras e ele foi embora. Peças de roupas limpas numa sacola plástica com pipocas foi tudo o que permitiram a ele naquele dia, naquela casa. Viu o homem descer os primeiros degraus da escada de cabeça baixa, antes de fecharem a porta. Pela fresta, despediu-se do homem sem nunca mais poder se esquecer dele. Uma imagem não partilhada perseguirá uma pessoa até ela saber o que fazer com ela.

  Seis da manhã de segunda-feira, eles partiram como das outras vezes, ela tomou banho e está sentada na sala, bebendo mais uma xícara de café. Foram embora e ela não sabe se levaram mais do que sacolas com pipocas no fundo, acha que desceram felizes as escadas, deu um abraço em cada um e pediu que levassem-na, nas sacolas deles. Por isso esse cansaço, essa perda de energia temporária, deu o que tinha de mais profundo e duradouro, sempre dá. 

  O que damos ou recebemos nas partidas e chegadas, ultrapassam instantes, se acomodam na alma ou vão dobradas para o lixo. A espera de alguém é longa e demora muito mais do que gostaríamos, as partidas são curtas, dolorosas e, por vezes, definitivas; mesmo que voltem serão outros e ela também. E é por isso que não pode ser um deserto, mãos vazias e sacolas balançando de ausências. É preciso dizer adeus com vontade de ir junto, mas ficar porque as plantas do apartamento não sobreviveriam sozinhas.

   Na sacola de plástico com alguns grãos de milho, que não chegaram a ser pipoca, as ausências que ele arrastava no seu carrinho com papelão pela cidade; acostumado a não ter. Ela nunca foi capaz de esquecer aquela tristeza, que era dele e, nalguma instância, é dela também. Ela cresceu, são mais de vinte anos e ainda busca o rosto dele pela cidade. Terá ele se recuperado daquele nada que lhe deram? Terá ela mesma superado a culpa por não ter tirado os milhos do fundo da sua sacola? Todos que vão embora levam mesmo o tesouro que ela oferece ou o abandonam antes de virarem a esquina?
   Quinze minutos para as sete da manhã. Sonhou, enquanto terminava as três xícaras de café, com aquele tempo em que todas as gentes tinham um dono e ela era a única não domesticada, o tempo em  que os passos de olhos fechados ou de costas levavam para mais longe, que limão com sal era azedo sem doer, que as cascas não eram lixo e ter piolhos e um atadura no braço era motivo para não ir à escola e ficar olhando a mãe costurar.
  Lavou a xícara com a estampa de natal, o feriado acabou, eles voltarão no próximo e encherão a sacola dela e ela a deles com o que de mais humano puder encontrar. Nunca mais viu o homem, mas honra a sua sacola de ausências em cada partida; dos outros ou dela. Ninguém partirá sem levar muito, ninguém irá embora sem as luzes estarem todas acesas.



sexta-feira, 16 de junho de 2017

O último hoje é o primeiro amanhã

  O letreiros já não são acesos há meses, mas mesmo assim a boca vermelha da xícara verde, antes luminosa,  sorri para mim; ela sempre me sorrirá. O cheiro do café não é mais sentido pelo bairro inteiro, pela quadra, nem a rua toda se impregna do aroma que, hoje, está restrito ao olfato de quem o pedir. Caladas estão as colheres nas xícaras, os copos na bandeja, a água no fundo da pia de alumínio, as risadas na cozinha, as moedas na caixa registradora, as mesas com os senhores de paletó na cadeira e os estudantes de apostilas que sempre eram perdidas, esquecidas ou acidentalmente molhadas com suco ou chocolate quente. As moças com toucas de pano xadrez sorridentes, foram desaparecendo ao longo dos cinco últimos anos; voltaram para a terra de moças sorridentes de toucas xadrez e o balcão se tornou um lugar extenso demais, solitário demais, um deserto escuro, com cheiros que não ultrapassam a meia porta aberta.

  Hoje é uma despedida, então eu peço sete. Ela coloca um a um no saco de papel e deixa uma abertura:
- Estão quentes, se fechar, eles murcham.
  Nos últimos meses o meu consumo de pão foi quase insano. Comia-os pela manhã, antes de sair de casa, comia-os no final da tarde e, também,  à noite. Com manteiga, geleia, queijo, maionese. Fiz torradas, rabanadas em pleno junho e até um pudim de pão eu testei, ficou bom. Tudo porque eu queria que a padaria não fechasse as portas. Mesmo que isso já acontecesse um pouco por vez há muito tempo. 
  É uma padaria antiga, tradicional, esteve aqui antes que eu conhecesse o bairro. Minha infância está do outro lado da cidade, mesmo assim fantasiei um passado onde esses pães estivessem à minha mesa, desde antes de eu nascer.

  Eu conheço os finais, quase nunca fui completamente surpreendida por eles, mas esse é um tipo de conhecimento que não suaviza dor alguma. Saber de um fim, antever uma despedida, sonhar, vislumbrar, prever o final de alguma coisa não nos prepara para a subida do avião assistida através de um vidro bonito do aeroporto; saber da ida, antes do dia, não segura as lágrimas quando a porta se fecha brusca ou suavemente; o horário marcado, o dia exato, o motivo inadiável nos consola, mas não ocupa o vazio do depois. Saber que é efêmero nunca fez de mim alguém mais forte nas despedidas, ao contrário, a cada indício de final, vou perdendo as camadas até estar completamente vulnerável quando olhar para as costas de alguém que eu já sabia perdido. Não ignorar que tudo acaba só me tornou sobrevivente da minha própria vulnerabilidade.

  Todos os outros já foram embora, ela soube de algumas partidas antes do dia e imagino que tenha sofrido muito a cada deserção, mas foi se adaptando heroicamente às inevitáveis baixas no contingente. Algumas despedidas devem ter sido especialmente dolorosas; a do marido que teve um infarto, enquanto fumava na calçada e que nunca mais conseguiu voltar ao trabalho - morreu no semestre seguinte -  e a de um dos filhos, o terceiro mais velho e segundo mais novo, que não se levantou mais do asfalto sozinho, depois de ser atropelado bem em frente a mãe que trazia uma dezena de pães frescos do forno. Para cada partida para muito longe, um dia de portas fechadas e muitos outros de semblante abatido, eu mesma não assisti a nenhuma delas, porque ainda não havia atravessado a cidade. Mas a história da mulher é pública e já impressa num caderno especial do jornal da cidade.

  A história da padaria é um recorte importante da memória do bairro e também da cidade, embora seja quase a vida toda de uma só mulher. Nas fotos da parede que amanhã eu não verei mais,  a mulher ainda jovem e o seu marido vivo, ambos espremidos e felizes no balcão diminuto desta mesma padaria, numa outra, os quatro filhos em cima de uma bicicleta velha, três deles descalços, o único de sapatos é o que morreu antes dos quinze, fotos de bolos que não fazem mais, de homens elegantes levantando a xícara, mulheres sorrindo ao lado de uma máquina de café expresso - a primeira da cidade - e muitas fotos das mulheres de avental e touca xadrez. Mas a foto que eu sempre olhei primeiro é a imagem em P&B de uma mulher com o cabelo preso,  o cabo de uma vassoura numa das mãos, postura esguia, que não sorri, mas tem um olhar altivo, como de alguém determinada a sair vitoriosa de uma batalha; só sei da vassoura pelo contexto, senão pensaria numa escopeta. 

  Todos os outros já partiram,  exceto ela que, cautelosa, deixou uma abertura no saco de papel para os meus pães não murcharem. Essa é a última fornada. Ela embrulha os últimos pães e eu vou embora antes do fim completo. Um filho e uma neta estão com ela no seu último dia na padaria. Quando já saía , olho para o fundo e ela segura a vassoura tão destemida quanto a jovem da foto. A neta chora, o filho também e ela varre, como se amanhã tivesse que abrir a padaria e ter o chão limpo.
 
  Eu sempre soube que a padaria da xícara luminosa e sorridente, na fachada, era um lugar  do qual eu sentiria saudade quando acabasse. A minha despedida foi extensa, o meu esforço de adiamento foi infrutífero. Eu nunca gostei só do pão ou do cheiro do café, eu sempre me nutri da constância da mulher e a sua vassoura, sempre comi o sentido de continuidade dela, mesmo que não soubesse disso no começo. Não era o pão, era a moça da foto armada de força, coragem e da sobrevivência a cada despedida. O retrato do homem que  foi embora há muito,  as crianças apertadas numa bicicleta só, o único menino de sapatos, perdido sob os olhos da mãe destemida, mas incapaz de salvá-lo. É a padaria mais bonita do mundo, porque nas suas paredes, quem foi ainda ficou. Mas depois da fornada do final da tarde,  algumas histórias ficarão no escuro, exceto a da mulher armada do amanhã que desconhece. Depois que apagar essas luzes, vai buscar o interruptor de uma nova parede. O final de hoje é o início do amanhã.




segunda-feira, 12 de junho de 2017

Um livro dura muito pouco nas mãos

   Quanto melhor a leitura, menos tempo um mesmo livro permanece sobre a cabeceira. Um livro é feito para durar noutra dimensão; fisicamente é só um amontoado de símbolos impressos. Eu ainda sonho com o primeiro livro que li, tinha cavalos nele, muitos, nunca me esqueci, embora não saiba o autor nem tenha, nunca mais, tocado sua capa. Eu sonho, porque ele mora em mim e vem me visitar enquanto durmo. Um livro de cavalos, também, faz de mim o que eu sou.
  Embora eu saiba que o final de uma leitura não deva ser triste, tenho dificuldades de começar outro livro no mesmo instante, preciso deixar que o lido se assente no fundo, como um pó, misturado na água depois de remexido. As páginas giram em mim, se misturam com outras de outros tempos, fazem conexões, se expandem e iluminam os meus olhos.  Noutras vezes, entram em confronto, lutam por maiores espaços,  massacram ideias, submetem frases e contorcem os meus músculos, fico encolhida na cama, esperando o fim da batalha.

  Depois que um livro acaba, simulo uma travessia, invento que as coisas serão outras a partir de hoje, mesmo que eu durma do mesmo lado da cama sempre e amanhã acorde dois minutos antes de tocar o alarme com uma música de uma cena triste de um filme antigo. Sou uma imensa biblioteca desorganizada, chegam livros novos, empurro os antigos para trás nas prateleiras e juro que volto para colocá-los em ordem um dia. Nunca volto. Não me desfaço de nada e também não abdico de nenhum novo título. Olho de longe, às vezes, às seis da tarde, quando ninguém mais entra na biblioteca e me orgulho da estética do lugar como um todo: as  linhas descontinuadas de tamanho e do colorido da lombada dos livros. A poeira não incomoda, faz parte não ter o controle de tudo. Eu não abriria meus pulmões para respirar um ar isolado desse tempo depositado. Quanto mais empoeirado, mais distante das mãos.

  Por isso me comovo com quem chega para pegar algum livro e não busca um lançamento. Seguem para as prateleiras mais altas ou  para as mais baixas, resgatam algum livro sufocado num canto e vão viver com ele. Eu quase choro quando busco a ficha e percebo que o livro esteve intocado na prateleira há quatro, cinco anos. Eu nem disse que ele estava lá e outras mãos o encontraram. Vou até a porta com passos emocionados, no batente, choro as lágrimas de uma mãe a se despedir do filho numa estação, e baixinho desejo uma feliz viagem. É como num casamento, não sei que sorte os noivos terão, mas os desejos de felicidades são os mais sinceros da alma.

  Então, hoje,  quando  alguém me pergunta se já foi superado aquele que foi lido. Eu sei que foi e que também não foi.
- Já o esqueceu?
- Nunca, jamais. Mas também não me lembro dele.
  Empurrei o livro velho para trás de alguma prateleira e não sei onde ele está, quase não o vejo, mas a minha biblioteca não teria o tamanho que tem se não fosse aquele livro velho.

  Quando fotografou um retrato antigo do álbum da minha família, enquanto eu não olhava e depois me mostrou. Eu sabia que era ele o leitor que eu esperava. Vestido verde água, sorriso vermelho e uma garrafa de guaraná em cima da mesa.
- Sabe que neste dia eu fui muito feliz?
- Imaginei que sim, porque eu já vi esse sorriso outras vezes.
-  Sabe então que sou feliz muitas vezes?
- Não contei quantas, mas de todas eu quero me lembrar para sempre.

  Tirou um dos meus livros da prateleira mais escondida, aquela no alto, quase pregada ao teto, soprou o pó da sua lombada, passou algumas páginas com cuidado e saímos juntos da biblioteca. Teríamos duas semanas de compromisso e a moça que chancelou o empréstimo desejou-nos felicidade. Ele não ouviu, mas eu sim. Ele leu cada uma das páginas, anotou referências, sonhou com algumas frases, compartilhou algumas e guardou outras para si. Foi o leitor que podia ser, gentil muitas vezes, impiedoso noutras. O meu livro também deu a ele o que podia; noites de tormenta e dias luminosos.

  Eu detestava quando ele passava dois ou três dias sem voltar à leitura, como se eu não estivesse lá, se não queria ler, que me levasse de volta à biblioteca! Eu detestava os dias que ele não fazia outra coisa senão me ler; me sentia exaurida, cansada de ser livro, submetida a sua curiosidade insana. Mas eu amava estar na sua cama, cabeceira e, principalmente, cabeça durante o tempo em que ele não me lia, sabia que o modificava e me sentia mudada também. Eu amava quando via seus pelos eriçarem quando se sentia especialmente tocado por alguma parte que lia e eu, fatalmente, me entregava mais e ficava vulnerável, entregue ao meu leitor, quase cativa.
  Ao fim, voltou para devolver-me, fomos muito felizes na leitura. Mas é bom também voltar aos companheiros de jornada e esperar um próximo empréstimo. Não me esquecerei dele, mas lembrar também não vou. Não caibo num livro só, volto sempre à biblioteca. Mas ainda lembro da foto que ele tirou e imagino se ele ainda se lembra da minha felicidade. Esquecer não vai, mas lembrar um dia ficará longe e eu serei o livro de cavalos a visitá-lo num sonho.




domingo, 11 de junho de 2017

As canetas que ele me dá

  Não tem data específica para ele me presentear com canetas, embora em datas específicas ele também traga canetas. Antes mesmo que a tinta de uma se acabe ele me dá outra. São canetas prateadas, que vêm, quase sempre, num estojo de capa transparente, forrado por veludo. Não são tão caras, quanto parecem, mas não são as mais baratas de uma papelaria. São, sobretudo, escolhidas sem pressa, embrulhadas num papel barulhento e, em geral, com um laço pequeno por fora do embrulho. Ele me dá canetas, eu nem sei desde quando, mas quando chega com um pacote brilhante nas mãos, eu sei que é uma caneta.

   Ele poderia me dar chocolates e desejar que a minha vida fosse mais doce; poderia me dar flores e querer que os meus dias fossem mais coloridos; poderia me dar relógios para tentar fazer com que eu me atentasse sobre a transitoriedade do tempo e a dureza dos ponteiros que marcam a vida; poderia me dar perfumes e desejar que eu me sentisse mais sedutora, mas nem sabonetes ele me dá.  Ele poderia me dar um peixe, num aquário com pedras coloridas, para eu colocar na estante da sala e me lembrar de alimentá-lo ou um gato que fugisse todas as vezes em que eu fosse abraçá-lo e que subisse na minha cama quando eu quisesse ficar sozinha, a desobediência do gato me lembraria da minha. Poderia me dar um cachorro dócil de pelo macio e desejar que eu tivesse sempre quem me esperasse na volta para casa; poderia me dar um sofá novo, onde eu passaria metade dos domingos ou uma mesa de jantar, para eu receber meus convidados com mais dignidade. Poderia, talvez, me dar uma mesa de bilhar, para eu treinar e ser uma competidora mais à altura das suas apostas.

  Poderia me ensinar a andar de bicicleta, ele não fez isso em tempo, mesmo que tenha passado a juventude inteira correndo sobre duas rodas; poderia me dar aulas de direção defensiva, mas ele nunca dirigiu um carro. Ele poderia me ensinar a economizar, a calcular os juros abusivos do cartão e a reclamar com o gerente, a fazer contas numa agenda marrom igual as que ele todo ano troca, mas ele só é o modelo, a teoria ele espera que eu pergunte, eu nunca pergunto. Poderia, se ele assim quisesse, me ensinar a rezar de novo, mesmo que eu não tenha esquecido, preferia que a voz de barítono dele invocasse com mais firmeza as divindades, sou informal demais para falar com Elas. Poderia me passar a fórmula do produto que ele fabricava para limpar janelas, as minhas estão tão sujas, que eu já nem olho mais para fora. Ele poderia me dar ingressos para um concerto, um show, uma apresentação de algum circo na cidade, mas ele me dá canetas.

  As canetas que ele me dá se acumulam sobre a minha escrivaninha, os estojos, às vezes, eu dou para alguma criança, porque elas sabem, melhor do que eu, dar utilidade a uma coisa que eu não uso mais. São muitas canetas e há duas semanas ele me deu mais uma, eu não consigo dizer que pare, porque eu gosto de recebê-las, mesmo que  use-as tão pouco. As canetas que ele me dá, eu não deixo que ninguém mais use, só empresto as que eu mesma compro, as baratas da papelaria. E tenho muito, muito medo de perder as que ele me dá, mesmo que todas se pareçam, porque eu ficaria desamparada de mim mesma, se perdesse as canetas que ele me dá.

  Quando ele me dá canetas, ele me diz que eu sou o que faço e que o que faço tem relevância. Mesmo que eu não use canetas, ele sabe que, um dia, eu comecei com elas e que já era ele quem me dava. Quando ele me dá canetas, ele me dá a mim e isto é o que de mais precioso uma pessoa pode dar, no afeto. Ele me dá canetas e algumas vezes bate a minha porta para saber se precisam trocar as cargas e eu não sei se existe presente maior. Ele me dá o seu estímulo, acredita na importância do meu fazer e isso é o melhor que o amor dele poderia me dar.
  Ele me dá canetas, mesmo que eu diga que estou cansada, que escrever às vezes dói. Ele não deseja que eu sinta menos dor, ele não me protege da minha humanidade, das minhas falhas nas regências, do meu choro quando eu digito uma palavra e ela dói. Ele só continua a me presentear com elas em um estojo bonito, que nem sei como descartar.

  Ele me dá canetas e diz que a minha voz precisa ser ouvida. Ele, que foi o primeiro a dizer que a minha voz era bonita e a que a minha desobediência combinava com a dele. Eu não me lembro dele me chamar de princesa nem fada, nem borboleta nem passarinho, nunca me disse que eu era ou estava bonita, porque isso nunca foi interessante para ele. Até hoje não sei o que ele não acha bonito; só sei do que ele não gosta, às vezes: creme de leite, atum, bateria, atrasos, banhos demorados e passear com animais domésticos. Não me deu tiara nem vestido rodado, mas me deu canetas, muitas.

  Ele me dá o que eu já sou, como se eu mesma fosse um presente.
- Não precisa mudar, só seja mais.
  Eu escuto, enquanto ele me dá mais uma caneta.

  Ele não me dá um sofá, uma mesa, um aquário ou aulas de direção, porque quer que eu caminhe;  não me dá relógios, flores ou chocolates, porque não quer que eu me distraia com o que não é essencial. Ele não fala com deus por mim, porque sabe que só eu posso chamá-lo, não me passa a fórmula do produto para limpar os vidros, porque ele mesmo quer limpar as janelas do mundo para mim. Ele me dá canetas porque acredita que na ponta delas está  minha promessa e destino; ele abastece a  gaveta da minha escrivaninha com tinta porque não quer que eu cale nunca quem eu sou. As canetas que ele me dá me enchem de amor e de vida, isto tudo num embrulho luminoso e barulhento.  Não são caras as canetas que ele me dá, mas depois de tê-las, eu não sei mais não ter.