segunda-feira, 24 de abril de 2017

Nós somos a história que ela não conta

    Repousa a revista no colo, o sol bate nas figuras e reflete alguns borrões na parede branca, ela afasta o cobertor e sorri, enquanto tenta segurar os reflexos, que se afastam mais a cada vez que ela se move. Essa é a perseguição da qual ela se ocupa diariamente, nos últimos anos: tentar segurar os borrões que sempre escapam. Não sei se um dia me esquecerei dessa cena ou, quem sabe, lembrarei-me dela eternamente. Não sei, não sei. Vejo e gosto, demoro nos detalhes, tenho o mais profundo respeito por tudo o que é dela; especialmente agora que tenho tido cada vez menos. Quando não compreendo o que ela diz, quando não sou capaz de entender seus desejos, quando ela parece confusa e não sabe o seu ou meu nome, busco os seus olhos e nos encontro lá, sem trapaças nem enganos; as duas ilesas nos dois círculos castanhos brilhantes dela.

   O sol vai embora, a revista cai no chão, ela se ajeita na cadeira sozinha, puxa o cobertor, cobre as pernas novamente e, de repente, se importa com a minha presença:
- Vem cá, senta mais perto aqui que eu vou te contar uma história.
Então pergunta de chuva:
- Acha que o tempo fica firme até mais tarde hoje? Viu a previsão já?
 Pergunta sobre o homem do gás:
- Separou dinheiro trocado? Eles não gostam de receber notas grandes. Veja com ele se não tá vazando, essas coisas explodem e a gente voa em pedaços. Olha isso direito!
Pergunta se comprei pão, se trabalhei muito, se os meninos foram para escola (que meninos são eu nunca sei, mas digo que foram e ela parece aliviada) e a história mesmo, essa nunca veio. Há anos que me aproximo depois da promessa e há anos a história não nasce, não chega, não cumpre com o anunciado.

   Eu sempre venho, mesmo quando eu não quis aceitar a condição que evoluía tão rapidamente, mesmo quando achava que poderia reverter,  que um dia se estabilizaria, eu desafiava os prognósticos e subia as escadas cheia de ilusões e fé, mas o quadro seguiu quase exatamente como o previsto e eu, continuei a vir, mesmo quando os degraus eram de desilusão. Já tive muitos medos; de perder nossa conexão, de também não reconhecê-la, desde que ela começou a esquecer partes de mim, de assistir nela uma possibilidade futura, de não suportar o apagamento de cada traço seu. Tive medo de desistir de tentar ouvir a sua voz, cada vez mais baixa e rara. Hoje ela é muito mais gestos e expressões faciais do que linguagem oral, aprendi um novo dialeto para  frequentar a sua ilha.

   Mas depois tive muita coragem também, fui subindo as escadas com raiva, força e decisão, entrando na casa vazia, ocupando espaços, decorando suas ausências, perfumando cada lugar abandonado; o importante é que a casa vazia nunca esteja completamente desamparada. E ainda tem a promessa de uma história que ela nunca chega a me contar, não sei mesmo se ela também se esquece no percurso entre a promessa e a narrativa ou se é uma estratégia para que eu venha com expectativa e me aproxime mais para ouvi-la.
   Ela, a feiticeira, encantadora dos dias, tecendo palavras, seduzindo reis e adiando a própria morte.

   Às vezes, quando estou no trabalho, no caminho da academia, durante uma corrida na rua ou passeando entre as gôndolas de um supermercado no bairro eu imagino uma história inteira que ela poderia me contar, alguma coisa escondida, um amor proibido, um crime, quem sabe? Uma ilegalidade inimaginável, uma atividade ocultada, um ato heroico, que a modéstia nunca a permitiu antes compartilhar ou qualquer observação sobre a sua vida ou até sobre a minha própria. Algo que pudesse me ferir irremediavelmente ou me redimir de todos os meus fracassos. Uma história qualquer que anunciasse que ela ainda está ali, que eu não preciso nos buscar nos olhos dela, que todo apagamento é temporário e que depois de amanhã ela reconhecerá a vida que construiu e aquela que inevitavelmente se apresentou sob a sua janela. Mas a história não vem. Mais um dia de promessa não cumprida

   Eu que amo o que ainda não veio, ela que se despede lentamente do que ainda não se foi. Somos as duas partes de uma casa, onde derrubam paredes e eu penduro os quadros. Todos os dias ela esquece um pouco mais, a cada dia eu me sinto mais responsável pelas lembranças dela. Nós já somos uma história. Talvez um dia  alguém nos narre: nós duas entrelaçadas pelas memórias que escapam dela e se aconchegam cada dia mais em mim. Queria que não me esquecesse, queria que não se perdesse de si, queria que nunca fosse embora; talvez não vá nunca.

   Olho para a mesma cadeira e, de repente, os cabelos brancos desaparecem, os remédios não existem, o cobertor e a cadeira são banidos das nossas vidas e ela  tem cabelos castanhos e a agilidade de jovem, me chama para almoçar, rega a samambaia e alisa o cachorro com as costas do pé, equilibrando-se sobre uma das pernas. Ela é a minha história, que não terminará quando for embora, eu sou a sua, que mesmo que ela não se lembre nunca, continua perseguindo os seus borrões na parede branca. Nós somos a história que ela não me conta todos os dias.


 

domingo, 23 de abril de 2017

Só queria um cigarro


   Ele se senta tranquilamente com as pernas para fora da janela e fuma um cigarro. É ele. É ele de novo. Já o vi na mesma janela esta semana, ao menos, mais duas vezes. Na primeira vez achei inusitado um homem estar numa janela no centro antigo com as pernas ao vento, fumando sereno; na segunda vez fiquei curiosa pela repetição da cena e até quis fotografar, mas pensei que talvez fosse uma invasão do seu momento sublime de fumar um cigarro na janela, do alto do quinto andar; já na terceira vez me encantei por completo com o homem, o cigarro, os pés balançando no alto e a fumaça do cigarro dele se dissolvendo no infinito. Nas duas primeiras vezes, já o tinha levado um pouco para minha existência. Parava o trabalho pelo meio e me lembrava dos pés dele no alto, lia um parágrafo pela metade e me lembrava do solado dos sapatos dele sobre a minha cabeça, escrevia alguma coisa e pensava no olhar distraído do homem no seu horário de almoço, respondia a uma pergunta e me interessava em saber se o cigarro era antes ou depois do seu prato; aperitivo ou sobremesa? Separava papéis coloridos e me lembrava de que talvez o cigarro fosse o prato principal. Meus dias se mudaram temporariamente para o apartamento do centro, especificamente para a janela, para o homem, para o cigarro que ele fuma pacificamente.

   É  um prédio velho no centro antigo, mas não é um prédio de estilo colonial,  art-déco ou moderno; é só um prédio com linhas retas, janelas de correr, em cima de uma lavanderia e uma loja de molduras. É um prédio ordinário, não é bonito, mas é pequeno, baixo, são cinco modestos andares, não corrompe a paisagem, talvez eu nunca o visse, se não fosse a fumaça e, depois, pela sola dos sapatos que eu vejo quando passo por ele. Deve ter três quartos, um banheiro e um lavabo, copa e cozinha, a copa vão chamar de sala de jantar, depois da reforma e na cozinha um basculante com vidros diferentes, cada um quebrou numa época e não encontraram igual, talvez troquem o basculante. As paredes do cômodo que eu vejo, são verdes. E o  homem que fuma, sem afetação, trabalha lá. Da janela ampla de onde ele fuma, não é só ele quem observa a paisagem, eu também vejo o apartamento, já vi outros homens lá dentro, um guincho na janela ao lado e containers na calçada; por isso sei da reforma.

   E ele tranquilo, aspirando fumaça e soltando-a com generosidade, olhando profundo para o céu da urbe, deve ver alguns telhados, pessoas passando a todo tempo, o trânsito caótico do meio-dia e ele incólume com o seu cigarro e as pernas soltas ao vento. E daí,  se há alguma lei que proíba um homem de fumar um cigarro com o corpo para fora de uma janela no centro? E daí, se o funcionário da segurança do trabalho chama sua atenção todos os dias? E daí, se o síndico acumula reclamações sobre um fumante suspeito na janela do apartamento de um prédio de família? E daí, se uma mulher passou e ficou olhando-o por alguns minutos nessa última semana? O homem fuma, eu vejo, eu invejo. 

   Não é porque fuma manso numa janela num prédio absolutamente comum e modesto, mas como ele fuma; existe uma intenção, entende? Ele  sai de casa pela manhã com o maço de cigarros num dos bolsos, um isqueiro no outro e sabe que ao meio-dia ninguém o impedirá.  Fuma absolutamente livre e despreocupado em meio ao caos do apartamento e do centro. Ele premedita a sua liberdade.
   Fuma e é capaz de parar uma guerra com esse gesto, fuma e interrompe um golpe, suspende  as ordens de desocupação de um conjunto habitacional abandonado, que deixaria famílias completamente desassistidas e desesperançadas, fuma e apressa a chegada de um filho, poupa uma mãe de horas de trabalho de parto num hospital frio com um médico absolutamente negligente, fuma e amortece as batidas descontroladas do coração antigo de um idoso que quer muito continuar a vida, fuma e dispara uma revolução, fuma e balança os pés sobre as nossas cabeças, fuma e desafia o capitalista com a sua improdutividade passageira, fuma e resiste a toda precariedade do apartamento, fuma e expõe sua própria precariedade e por isso, me salva.

  Quis fumar, não vou. Não pelo meu histórico familiar terrível ligado ao cigarro, não pelo cheiro forte e permanente que se espalha  nem pelas propagandas que não passam mais na TV, não pelos documentários e reportagens com seus dados alarmantes, não fumarei pelo câncer. Resisti ao cigarro mesmo depois de todos os filmes da Nouvelle Vague, resisti à Bardot, Anna Karina e Belmondo mas quase não resisto ao homem do centro antigo.
  Divide um cigarro comigo, homem? Deixa eu me sentar do seu lado na janela e durante um cigarro sejamos fumaça.

   Somos precários, tanto quanto ou até mais que esse prédio antigo reformado. Não tenho medo da precariedade, só queria um cigarro hoje. Queria ser a fumaça que cerca a cabeça do homem, que enche os seus pulmões de um veneno pacificador, que o retira da materialidade da sua vida de operário e o faz alçar voos de liberdade e descanso pela cidade; o soberbo homem que pisa sobre as cabeças do asfalto. A fumaça que afasta os alérgicos, os pudicos, os veganos, os mórmons e que atrai os ébrios da madrugada, que pedem um trago ou um isqueiro emprestado; que impregna nos tecidos, poros, nos cabelos de quem fuma ou se aproxima do cigarro. A fumaça redentora do meio-dia, que começa e termina numa ausência, flutua, se esvai,  mas que por alguns instantes ocupa os vazios do homem.

   Ontem  o mundo me pareceu completamente organizado, depois da fumaça, eu que não era. O caos fora é sempre mais fácil de ser superado. E se eu filasse um cigarro, se faltasse ao trabalho? Quem me impediria de dividir um maço e uma janela no centro? Que lei eu infringiria? Qual o sossego eu perturbaria? Quem me veria?
   O caos de fora, me organiza dentro. Tenho que estar bagunçada para saber encontrar as minhas coisas. Eu só queria um cigarro, um tempo de fumaça e voo, mesmo não temendo cada vidro diferente que eu carrego no basculante da minha cozinha.



terça-feira, 18 de abril de 2017

As 36 formas de não-amor

   Gritar.
Escrever um bilhete e não escolher cuidadosamente as palavras, não revisá-lo, algumas vezes, antes de deixá-lo na porta da geladeira. Vai entender? Estou sendo clara?
Não escrever bilhetes, cartões ou, pelo menos, uma carta longa para ser encontrada numa mudança, num dia de procura desesperada por um passaporte ou carteira de trabalho, atrasar a busca, porque achou a carta. E ao lê-la, sorrir, lembrar-se de quem era quando a leu pela primeira vez  e molhar  o papel nas mãos; se foi embora ou não, tem a carta. Houve um encontro as três da tarde, numa segunda, no apartamento mais ordinário da cidade. Que bom que deixou a carta.

  Queimar memórias. As fotos, até entendo, os souvenirs baratos de viagem, também, porque precisam dar espaços para novas lembranças, mas não admitir um tempo, se recusar a falar sobre ele ou esconder vestígios, de um estágio, uma entrega é desonesto; cruel e ingrato com a sua própria  história.
  Não compreender a delicadeza dos sentimentos que fazem uma pessoa. Achar que pode carregar tudo num porta-malas espremido, sofrendo os trancos  da estrada esburacada, sem paradas,  só abrir e tirar tudo no final da viagem.

  Levantar antes dos créditos finais e não ouvir, de mãos dadas, a última música do filme até as luzes se acenderem e os dois olhares se encontrem, depois de uma narrativa em que estiveram juntos.  Não ir a cinemas porque se incomoda com o barulho da pipoca da poltrona ao lado, mesmo que eu adore cinema.
  Achar que amor, amizade ou qualquer tipo de afeto é planta do mato, que forte, resiste a tudo sem nenhum cuidado. Ou um toco de madeira no meio da estrada sem serventia quase nenhuma. O amor é importante, é salvador, mas também precisa ser salvo, às vezes.

  Sonegar sentimento, economizar em expressões de afeto, achar que eu entendo mesmo que não demonstre; acreditar demasiadamente no subentendido, subtextos, sub-dramas; isto é sub-amor.
  Não escutar um música nova por dia e pensar se aquele outro gostaria, não dividir um livro, não perguntar sobre o que eu tenho lido e ouvido.
 Não ter curiosidade alguma sobre o meu trabalho, não perguntar os detalhes, não saber que o que eu faço e como faço, é também uma identidade minha; e que importa.
  Não alcançar o fundo, ficar na superfície. Querer entrar na água e não molhar o cabelo. Ter medo do mergulho, do escuro, do gelo da água, não confiar na mão estendida.
  Não estender a mão nunca, achar que por eu saber nadar, nunca me afogarei.

  Não conhecer os  cheiros de quem diz amar. Não saber que ninguém cabe em um só frasco de perfume.
  Não desvendar os mistérios, não tentar ir além da porta. Não pedir licença. Se acostumar ao batente.
  Desistir da porta, antes de encontrar a chave.
  Ignorar as batidas do próprio coração, não senti-lo se desesperar-se quando a possibilidade do afastamento se aproxima.

  Não querer conhecer a casa em que eu cresci, nem querer saber sobre o meu quarto cuja porta era num armário embutido e a cama era de casal, que eu dividia com o meu irmão. Não se interessar pelas minhas fotos na escola, pelas lembranças de infância, não querer ouvir histórias sobre mim, que os amigos mais antigos gostam de contar. Não querer comer o bolo da minha avó.
  Não respeitar as minhas crenças, meus deuses, minhas divindades e tradições; rir ou menosprezá-las.; não tentar compreendê-las e querer me converter a uma fé igual a sua ou a uma descrença completa. 
  Não ouvir minha opinião contrária até o final, mas preparar-se para respondê-la num suspiro meu, antes que eu a terminasse de emiti-la.

  Sufocar o que eu sou, trancar as janelas da casa e ignorar a necessidade do voo. Negar-se a me assistir, deslizando por entre as nuvens. Dizer para não ir, mesmo sabendo que ir é a vontade do pássaro. Quando podia só dizer:
- Eu não queria que se afastasse, mas eu quero que você seja completamente livre e feliz.
  Não se surpreender com a minha chegada; mesmo que ela seja diária e repetida milhares de vezes.  
  Não buscar a minha mala na porta.

  Não tentar descobrir nenhum gosto meu, não querer surpreender, não tentar amar o que eu amo, só se acostumar a tudo ou se afastar deles e me puxar junto.
  Não perguntar a minha opinião sobre a sua opinião; casamento com separação total de ideias. Como se as ideias fossem apenas pó em cima dos móveis. Entramos e saímos os dois, cada qual como no seu começo. As ideias são os mobiliários mais fixos de uma casa; o amor é a casa.
  Querer que eu seja diferente, tentar fazer com que eu seja diferente, me amar, somente, na expectativa e na condição de eu ser diferente, propor e se esforçar pela mudança.
  Não desligar a TV e apagar a luz quando eu dormir.  Não fazer silêncio e me olhar sonhando por alguns minutos antes de também dormir.
  Querer quebrar os pratos e não saber passar o detergente e a água na nossa louça suja.
  Não chorar na minha frente e pedir para eu não chorar, quando eu quiser chorar. Não falar sobre choro.
  Não querer aprender a cor dos meus olhos todos os dias, não perceber que ela varia.
  Não perguntar se eu estou confortável; não se perguntar se você também está.

  Fugir da minha loucura ou tentar entendê-la, não perceber que um copo de água e companhia a faz inofensiva e mansa; não se sentar ao lado dos delírios.
  Querer falar sempre. Não tentar falar e ouvir, numa mesma frequência: cuidadosa, respeitosa e suave.
  Não rir das piadas do meu pai; é a expressão mais afetuosa dele. Não ouvir as histórias da minha mãe; é a carência mais antiga dela.
  Não dizer amor, não saber amor, ter medo e gritar o não-amor.
  Para sufocar a minha razão, a minha voz, o que eu sou e você diz amar, mas não ama, gritar.
  Gritar é espantar o amor para longe e depois matá-lo de tristeza e solidão. Das 36, uma basta para o não-amor.




sábado, 15 de abril de 2017

Escrevo cartas, não espero que elas cheguem

   A última chama é sempre a mais difícil de apagar e a primeira, é demasiado difícil de  acender. Os primeiros biscoitos saem crus ou queimados demais, a última fornada também não vem assada como espera o cozinheiro.  Se esperar pelo carteiro, ele não vem. Não enquanto estiver à porta, não na hora exata da espera; não nos quinze minutos, meia hora. Virá depois, quando não tiver ninguém mais na casa, quando o destinatário se distrair da espera. A carta chega para alguém que esqueceu-se de esperar por ela ou para quem não sabia que ela viria. As cartas têm um tempo. As cartas não obedecem as mãos que querem as cartas; elas desviam dessas mãos, elas se atrasam, se perdem, extraviam, não chegam para os que as esperam.

   Às vezes, vem um intervalo, não carece de desesperar-se e achar que foi embora, tampouco ficar por muito tempo magoada ou prometer nunca mais responder nada. É um afastamento provisório, uma liberdade que só é possível no amor. Quando voltar, não estará à porta, as luzes estarão apagadas e, silencioso, vai se sentar no degrau da calçada e esperar, nervoso, porque não saberá o que dizer, mas vai esperar do lado de fora, solitário, inseguro, esperançoso, com o sentimento abrindo o primeiro botão da jaqueta e a saudade não deixando-o ir embora.  No intervalo entre duas pessoas, porque ninguém se distancia por uma força externa, mas porque a continuidade começa a pesar, é preciso sair, fumar um cigarro e querer voltar com flores nas mãos.

   Esperar é o movimento contrário da carta; esperar é quase sempre fazer com que o carteiro escolha outra rua, perca seu endereço, coloque a carta numa caixa que não é a sua. Mover-se sem esperar nada é o único jeito de resistir. Colocar a isca, jogar o anzol  e ter infinita  paciência para não içar nada da água. Decerto que um peixe até poderá ser enganado, mas voltar à casa com a sacola vazia não deve ser o fim.  Esperar em frente ao rio, ao mesmo tempo que é movida por alguma coisa.   Sentar-se na calçada, ver o carteiro passar do outro lado e não se lembrar de perguntá-lo se tem alguma correspondência para o número da sua porta.

  Mesmo sentada, ser movida por uma fonte caudalosa e quente ou fina e gelada. Se algum vizinho perguntar, diz que não espera, só se move ou é movida. Move um pouco de calor em mim, aqui dentro, entre o tórax e o meu ventre. Move uma brisa salgada do verão em 2005, que nunca mais foi embora. Move uma vontade cada vez mais avassaladora  de me explicar, de aprender a língua do meu país e falar com os meus parentes. Move um desespero de não saber me comunicar e, agora, desejar fazê-lo. Move-se pela minha floresta misteriosa uma arara que come o farelo do pão que eu deixo cair, um bicho preguiça move-se pela árvore que nunca deu frutos. Move-me para fora da casa um clarão que não assusta ninguém, porque é só silencioso e branco

  Enquanto o carteiro não acerta a porta, movem-se, nas minhas lembranças, uma leitura, um autor, um quadro, a Jaqueline de Picasso, uma música, a voz de uma cantora antiga, um pano de prato com uma pintura infantil:
- Quero dar de presente para ela.
  Eu, vermelha, porque não sei receber presentes. Eu, feliz, pelo afeto inesperado, eu calada, porque desconheço a linguagem ao meu redor; veio, no dia 12, o amor que eu não esperava também.    Move-se numa das linhas da minha testa marcada uma resolução, uma vontade de mudança, de aprender o que eu, há bem pouco, não achava que precisasse e só agora sei o quanto eu necessito.

  Quando subir a rua, verá o homem de jaqueta sentado à porta e saberá que ele só veio por não tê-lo esperado mais. Ele a verá, se levantará e, inseguro,  ainda não estará certo do que dizer. Se aproximam, trocam cartas e  ela abre a porta para ele entrar; não precisou de campainha. O intervalo acabou, por hora. Matam as saudades na cozinha, enquanto ele conta como foram os dias e ela acende uma vela numa das bocas do fogão.

   Move uma chama na vela que precisa ser acesa, move um pavio queimando e um dedo molhado que o apagará, implacável, antes de todos irem dormir. Move um tempo certo de assar biscoitos e escrever cartas, não esperar por elas. Movem-se pontes que nos ligarão, de novo, a alguém de quem nos afastamos. Move um cheiro doce dos domingos antigos de páscoa; é preciso acreditar de novo.
  Eu acho que nunca  me esforcei de verdade para ser clara; obscura, cansei. Move um desejo de sair da morte, sem experimentá-la, de abrir a porta sem precisar que toquem a campainha. Move-se, entre os meus dedos, a insistência de escrever cartas e saber não esperar por nenhuma.


quarta-feira, 12 de abril de 2017

Faça uma tempestade azul

   Se o fogo arde demais e se ele se espalha queimando, num incêndio interminável e doloroso, durante o dia. Se chega a noite e o gelo parece insuportável, congelando as articulações, cimentando vazios e endurecendo sentimentos. E  se difícil for, encontrar um lugar ao meio, numa temperatura amena. Se dormir e não se mover parecer uma tentação irresistível, se falar for imensamente desgastante e improdutivo, então invente.
  Crie uma borboleta de asas negras, salpicadas de lilás e não a aprisione, nem tenha medo dela, não a classifique, não a fotografe, não dê um nome, nem origem, crie e a deixe solta pelo mundo. Crie um rouxinol com um canto melancólico e derrame lágrimas quando ele cantar, não evite o som que vem dele para você. Crie um lugar em que a sua tristeza não incomode, não desperte compaixão ou faça as pessoas insistirem num sorriso que não é para agora.

  Crie um novo dicionário, itinerário, mapa astral e geográfico, invente regras e quebre-as, incentive os outros a também infringi-las. Desmonte as peças, desorganize-as e tente construir outra coisa com os mesmos pedaços.
  Invente um estado, um governo e não negocie o seu amor, não aceite os testes nem tente prová-lo a ninguém. Faça concessões se achar que deve, mas se for doer na sua alma, para além da carne, não faça, fique na chuva, no escuro, no frio, sozinho, doente, mas não faça, segure a sua lança até o último suspiro: - Eu acreditei nisto. Seja firme, ainda que solitário. Não se corrompa para ser aceita, nem use de persuasão para aceitar as outras.
  Conheça um mistério, qualquer um, tire suas capas, coloque-o para tomar sol, tire toda a nódoa do esconderijo. Abra caminhos e não tranque as portas.

  Desenhe uma meia lua no céu encoberto, encha de estrelas um tanque de água barrenta, limpe as lágrimas de uma desconhecida, deixe cair as de alguém que você admira muito; sua heroína se desmancha em líquido humano; veja.
  Construa um forte, cheio de escudos, posters e símbolos inspiradores, divinos ou não, religiosos ou não, místicos ou não, profanos ou não, humanos ou não, capitalistas ou não, mas saia de lá sempre que possível - não se esqueça que sempre é possível - e deixe o que você não conhece, ainda, impregnar seus gostos, sua derme, seu relógio biológico. Não duvide da biologia, mas não se prenda a nenhum determinismo, nem genético, nem hereditário, nem filogenético.

   Vá à Roma e não conheça o papa, se não quiser; vá ao Louvre e não veja a Monalisa, se não tiver vontade; vá ao Egito e ignore a pirâmide de Quéops se não quiser vê-la;  vá à Lisboa e não tome um vinho verde no Chiado, se não quiser beber, nem conhecer o Chiado. Vá ao purgatório e não peça redenção, se sua alma não estiver arrependida; vá ao mais fundo de si e se traga de lá, se achar que ainda pode ou afogue definitivamente o que não quiser mais trazer à superfície. Mas se, por um acaso desses, for ao interior de Minas, não deixe de tomar um café numa xícara esmaltada, isso vai te fazer ir a uma outra dimensão, se for ao cerrado tome banho de cachoeira e ande descalço na terra rachada, pelo menos uma vez, por favor.

  Invente um automóvel supersônico, um trem de energia solar que não polua e a viagem dure um instante, apenas um milésimo de saudade e a leve a qualquer lugar a qualquer hora do dia ou noite, que esteja disponível numa estação itinerante e a ausência se cure ao descer as escadas e o abraço da procura esteja estendido, quando abrir a porta automática.
Elabore um método infalível de prolongar a vida dos animais de estimação, porque sempre morrem antes de podermos dizer adeus, antes de conseguirmos levá-los até a porta para a despedida que merecem.

  Inaugure dias que não caibam na semana, semanas que não fiquem limitadas aos meses e horas que não sejam escravas dos ponteiros de um relógio dourado. Estacione os sentidos em vagas largas e fáceis de manobrar, não acumule multas, não ultrapasse os sinais,  não brigue nesse trânsito,  viva-o abertamente, sem querer chegar a um lugar determinado.
  Crie um elevador de éticas, de altruísmos, de empatias e gentilezas, para todas as vezes que a insensibilidade quiser deixá-lo no piso mais rasteiro ou, até, abaixo dele. Imite uma garça, um cisne, uma andorinha ou coruja, os pássaros são seres cujas mentes voam antes de suas asas; abrigue um João-de-barro no oco do seu coração e nunca mais ele ficará completamente vazio. Abrace um ninho, abra-se para os ninhos.

  Faça uma tempestade azul quando ventar muito no sítio mais íntimo que você carrega. Crie liberdades, faça os passos de dança completamente autorais, componha músicas no compasso que escolher, escreva poesias sem métrica, rima ou sentido possível e passe a tinta da sua aquarela mais subversiva onde quiser, como quiser, não se limite a uma tela num cavalete. Assuma sua autoria. Seja o autor de cada invenção.
    Antes de dormir, não tome remédios, nem banho morno, nem desligue a TV, se não alcançar o controle remoto, não medite, nem entoe mantras, mas invente uma história onde eu te visite, nos sentamos numa elevação qualquer e assistimos o dia acabar e a noite subir na sua plenitude mais bonita. Faça o que ninguém mais pode por você nem por mim. Faça uma tempestade azul, quando o frio da indiferença e da desesperança alcançar seu forte. Não se proteja, mas reaja, lute e a tempestade azul, depois de brilhar o quanto deve, vai embora. Assista da sua janela, tudo aquilo que você criou para partir e seja o adeus.