domingo, 21 de janeiro de 2018

Parece loucura ruim

  São duas lentes aflitivas que contornam corredores, atravessam paredes, escondem-se entre os vãos da escada; fungos que se alastram na umidade soturna. São olhos escuros de afeição indesejada, uns olhos de oferta imposta que os ombros dela recusam. Recusarão sempre.
  Depois dos olhos, foi se encurvando, confinando o corpo em roupas escuras e escolhendo as sombras, mas os olhos permanecem. Duros, pesados; grudados na nuca. Peso imposto, armadilha grotesca, disfarçada de admiração.

  As horas correm, o dia acaba, o portão se fecha atrás da desconfiança, a porta está trancada, alarmes e câmeras vigiam a noite, mas os olhos duram, mesmo depois de já terem ido embora. Nódoa persistente que atrasa o sono e atravessa sonhos, agora, intranquilos. Olhos que espionam, mas não a veem; que se fixam, mas não compreendem as  negativas sucessivas; que importunam, sem nada descobrir. Olhos que retiram a paz do anonimato desejado.

  E depois, a indesejada voz; pouco ouvida, é verdade, porque os ouvidos bastante intuitivos, não a reconhecem com vontade. 
  Invasora, forçada, perturbadora, que visita seu silêncio, que polui seu mar de ondas calmas ou agitação acolhida. Um som oco, que degrada sua natureza de liberdade.
 Voz que fala sozinha, o que quer e quando quer, que rouba qualquer chance de resposta; que sequestra o som das vozes ao redor, que encobre e emudece a quem diz querer muito ouvir.
  Uma voz-machado que ceifa qualquer possibilidade de expressão contrária. Ditadura do desejo que não deseja o desejo do outro, mas o próprio desejo e a sua invenção, a partir dele. Imposição indelicada e opressora.   

  Um hábito ruim de ruir a tranquilidade de uma pessoa que é vista como pote de margarina, cadeira, caneta, lápis, chinelos, pássaro de porcelana em cima da estante.
  Repetição inoportuna e monótona de tentativas de aproximação, a mão continua a tentar alcançar uma presença que não é acessada apenas por uma vontade unilateral. Quem não entendeu essa dinâmica? O mundo talvez se recuse.
 
  Intentos corrosivos que fragilizam as estruturas tão arduamente erguidas, que testam a força dos ombros que nada querem carregar, involuntariamente.
  Gestos que descendem desde muito e durarão não sei até quando, porque mudam os donos, mas os olhos sempre voltam; é assim, dizem, a humanidade.
  O quão humana ela não é, que não participa das investidas, só emudece no centro do alvo, torcendo para que a flecha não chegue até ela? Desviar, calar, ignorar o peso dos olhos negros e da voz indesejada.

  Dói sempre não poder ser o que se é, escudo frágil, permanentemente erguido. Insegurança por cada luz acesa, cada bandeira desfraldada, cada palavra dita, escrita e defendida. Expressões medidas, confinadas, postas à prova de mal entendidos e desgostos.
  Dez mandamentos, inscritos em pedra dura: 1) não ferir a quem fere; 2) sorrir aos desconhecidos; 3) sorrir aos conhecidos; 4) sorrir aos conhecidos e desconhecidos incômodos; 5) aceitar a dança para não magoar a mão ofertada; 6) falar somente amenidades, porque não vai ser ouvida, de verdade; 7) encolher-se nos assentos de transportes públicos, porque a sua natureza é diminuta, se não é, deveria; 8) não atrapalhar os que querem velocidade, trafegar somente na faixa da direita; 9) não dizer que sabe, mesmo que saiba; 10) não ser. 

  Conhece o medo. Remoto descontrole. Era um medo de não poder ir além dos cercados da casa. Nenhuma proteção é o bastante contra a insegurança.
  Lembra-se de Francisco, dando socos no vidro do ônibus e ela envergonhada do pavor que era ser alguém para ele. Parece uma loucura ruim, de novo. Os socos alcançando depois de tanto tempo, os olhos que não são verdes como os de Francisco, colocando-a à prova mais uma vez. Olhos escuros, agora. Pesados de outrora.
   Parece estar sempre num treinamento infinito; um obstáculo, depois do obstáculo e outro obstáculo depois de outro. Parece não ter fim a história de batalhas do seu gênero neste mundo. Deve estar preparada; sempre.



sábado, 20 de janeiro de 2018

Para não embarcar na promessa do impossível

   Para não querer esquecer a música, para não desligar o rádio do carro, se ela tocar, para não mudar o canal da TV, se ela surpreender numa cena do filme, na novela que só assiste porque está cansada demais ou na série, que nunca viu antes. Para não sentir os abalos de afetação, vindos em ondas até ao coração, para não ser submersa em uma enxurrada de memórias e dúvidas sem respostas.  Para não ser captada eternamente pelo ritmo a cada vez que a música chegar, para não ser refém do medo que ela se apresente em um lugar público impossível de fuga. Perdoar.
   Não culpá-la por ter estado nela ou ela em você; por tê-la feito tão sua história, que agora não sabe gostar mais dela, só porque a história é outra. Libertá-la.
  Soltá-la do cativeiro da lembrança puída, rota, sem serventia. Deixar que letra e melodia sejam para além do que os poros e os pelos dizem que são. Não desligar, não trocar de canal nem tentar esquecê-la mas ouvi-la, cantá-la, mesmo se chorar, como se a música fosse nova e pela primeira vez alcançasse os tímpanos. Uma mesma música que não pertence somente a uma história acabada, mas ao começo dela e tudo o que de melhor ela plantou no canteiro aberto que a recebeu. 

  Para  levantar antes das sete e correr na avenida ainda vazia e com o sol menos latente, um despertador e o sono cedo, restaurador; colocar o tênis antes da ideia de um descanso muito largo entre as paredes do quarto verde. Querer imagens, sons, buscar pessoas com as suas infinitas sutilezas de manifestações. Com os sustos, as surpresas, as gentilezas e, até, agressividades; os nadas que também importam e que enriquecem os cenários das manhãs de sábado. Procurar hortelã e pimentão no mercadinho, levar berinjela, salsa, alecrim e um desenho de criança na sacola branca e fina, quase transparente.
- Para mim? Muito obrigada, o que é?
- Um desenho.
- Muito bonito. Muito obrigada.
  Não disse? As pessoas e as suas gentilezas, as pessoas e as suas mudanças de planos para o almoço.
  Sair bem cedo, antes que o carro atropele as esperanças, antes que o sol encontre a persiana gasta e o sábado se prolongue em preguiça e exílio voluntário.

  Para não pedir de joelhos que fique, alguém que já foi embora, liberdade, desejo de boa sorte e desculpas em lugares certos - o chão não é um deles.
  Compreensão  das diferenças entre distância afetiva e geográfica, a primeira é sempre muito mais longe, às vezes irrecuperável; cartografias humanas diariamente sujeitas às modificações.
  Aceitar a ilimitação dos desejos e a limitação dos afetos. Encontrar uma canoa, navio, trem, foguete, cometa ou avião que transporte para outros lugares o que já não é mais daqui, ainda que ele esteja  no sofá da sala; inerte de medo. Lembrar-se das duas mãos que ampararam, mas que podem disparar, impulsionar ou, apenas, desamarrar. 

  Para não ser tarde demais para subir na onda que já está pronta para quebrar e arrastá-la até à areia ou até ao mar aberto. Para não engolir água, não disparar o coração de medo, para não ser tarde para gritar socorro ao salva-vidas, para não ter que fingir saber o que não sabe, para não nadar para o lado errado; observação e distanciamento, antes do mergulho.
  Acreditar no mar e nos braços, mas não ser completamente submetida à água, na confusão de uma tempestade repentina. Saber dos riscos, mas também dos portos; ser calma na escuridão e ondas dispersas, mas não perder-se muito das luzes do farol. Não confiar completamente nas vozes de fora, mas não ignorá-las, podem saber bem mais do que achamos que elas sabem. 

   Antes de ser atropelada pela ansiedade, que corta os carros na avenida; antes que a esquizofrenia familiar se manifeste, uma visita respeitosa à loucura, hospitalidade sincera e acolhedora.
Não temer a insanidade, mas não se apegar demasiado aos limites de um diagnóstico, porque assim, também, é a normose; que repete os padrões esperados. Não ser preestabelecido; ser cambiante.
  Não matar de inanição a possibilidade criadora. Inventar uma língua nova, uma palavra, um dia nunca visto antes, uma estação do ano, um aniversário, uma música, um país, um tipo de governo ou sistema social, um passo de dança na cozinha, um nome de algo que não exista e algo que não exista para caber no nome. Inventar, antes que seja tarde; que a reprodução sistemática  se alastre e ocupe completamente os campos, que eram férteis, mas imperceptíveis ainda.

   Para não corromper o silêncio pacífico das manhãs de despedida, ajudar com a bagagem, embrulhar as partidas, nomear com caneta esferográfica preta os pacotes, as memórias, os santos, os retratos, os discos que ninguém mais ouve; só a música fica. Escrever nas caixas e prevenir os carregadores das fragilidades transportadas.
  Voltar para casa, quase vazia de móveis e completamente deserta de passado, com berinjela, salsa, alecrim e o desenho de um barco.
  Para não se calar por medo de não voltar ao conforto do silêncio das manhãs de sábado, gritar, chorar e soluçar largamente. Sentar na cadeira que ficou e olhar para a parede com a marca de um móvel que não é mais dela, até a música que poderia ser renegada alcançar as batidas do coração e acalmar o inesperado já sabido.

  Estacionado no lugar do caminhão de mudanças, já pretérito, um ônibus verde completamente vazio, sem nem o motorista dentro. No lugar do nome da linha, do bairro, da cidade ou vila, uma promessa inscrita: "Resgatando vidas". Para não ser levada pela história de um resgate improvável, impossível por um ônibus parado sob a minha janela, coloco o desenho do barco em linhas tortas e colorido bem vivo, regalo da manhã no mercadinho, na porta da geladeira. É sempre melhor ir, deixar ir, ajudar a ir do que nunca mais alcançar, mesmo quando perto. 
  Um barco, uma música que fica, uma mão aberta, um copo com água e açúcar, um caminhão de mudanças indo embora, são possibilidades melhores do que um ônibus vazio, prometendo a impossibilidade que é o resgate pela direção alheia.  



terça-feira, 16 de janeiro de 2018

O último baile antes do próximo banho

   Às vezes, é só entrar com os dois pés na água e o rio raso é calmo e acolhedor. Molhar todo o corpo é fácil e sem lutas; o mergulho longe da margem, onde a água é mais límpida e transparente, não causa medo, nenhuma escuridão demora nem o completo silêncio angustia. Água e corpo se encontram sem disputas; não há esforço. O banho é um longo despertar, de sussurros tranquilos e cheiro de café; é um acordar lento, aos poucos afastando os sonhos e impregnando o olfato, a audição e a visão com a materialidade e a concretude do outro lado da cama .

  Noutras vezes, basta um pé se aproximar da água e a corrente avisa que não será pacífico molhar a cabeça. A água não se entrelaça ao corpo, ao contrário, expulsa-o, ora afasta-o ora aproxima-o com rispidez, formando círculos, redemoinhos que exigem dos músculos toda a potência para o corpo não ser submerso neste fundo de rio e a alma não ser tragada pelo universo líquido; é um despertar sobressaltado e nervoso.

  O rio intranquilo de hoje é no mesmo lugar do remanso de ontem, o corpo disposto está sobre os mesmos dois pés que reconhecem o caminho, mas estranham muito o movimento. Não há meios de saber sobre o encontro da água com o corpo até estarem um diante do outro.
Num dia de clima bom e tempo a ruir, de rio agitado, que rejeita o que sou, não há muito a fazer. A natureza exerce a insubmissão que é dela, posso recolher os pés, voltar para a casa com o cabelo seco e a desistência da intenção de banho.

   Quando o rio não admite meu corpo nas suas entranhas, quando mergulhar exige um esforço que eu não posso empreender, não insisto, invento outras modalidades de descanso. Ontem, eu enchi um barco de flores e não o enviei a lugar algum. Deitei entre elas, fiz delas meu rio, anexo do meu corpo, minha alma saída de mim. As flores no barco e ele longe da agitação, que batia em outro lugar. Recebi a visita de um sono leve, entre estar acordada e não estar, uma preguiça fresca, um agrado que me dei sem planejar.
  No barco, inerte,  de flores reli uma história que escrevi  sobre um tempo antigo, nela não tinham homens que mandavam nem mulheres que obedeciam, era uma narrativa curta, trinta e duas páginas onde cabia toda a criação do mundo. Eu a escrevi para mim, nunca a mostrei a ninguém; mas todas as vezes em que a releio, descubro uma informação que eu não tinha.

  Ontem, depois que o rio pareceu-me demasiado inquieto para um mergulho duradouro, tive mais tempo para resolver as pendências adiadas. Foi, então, que cometi alguns assassinatos, calorosamente premeditados. Matei dois arrependimentos e um amor, que há muito, vazio, já não tinha serventia, a não ser produzir ecos dentro de mim. Bastou, basta. Nem precisei me levantar, amasiada com  a coragem, aceitei a insegurança da completa ausência, sem as minhas vozes duplicadas, sem os disfarces das risadas e aplausos forçados.
  Não enfrentei o rio, mas, finalmente, me desprendi de um outro medo, que é o de não saber o que fazer com um bolo inteiro, quando se queria só um pedaço. Tornei-me um centauro, metade mulher, outra metade cavalo e investi com a minha espada contra o que me ocupava com raízes, mas nunca faria sombra, quando eu precisasse descansar. Bastou o amor solitário cair e os dois arrependimentos agonizaram junto dele.

  Com os dedos ainda quentes do sangue, abri os espaços em mim e limpei os restos de memória salpicados no chão, desde o último carnaval; os confetes que as minhas mãos lançavam na minha própria cabeça, enquanto eu esperava meu par, que nunca chegou.
  Antes da completa limpeza, usei o salão para dançar vinte ou trinta músicas, marchinhas, sambas-canção e me despedi de cada pedaço de lembrança, soprando o confete para longe. As danças sem par, eram irregulares e livres, soltas de marcações e cuidados com os pés alheios. Dancei, cantei, bebi, sorri e não me lembrei de esperar, sentada na cadeira de desolação, por mais ninguém; estavam mortos os que adiaram a minha alegria.

  Mas, depois de um dia distante do rio, o próximo mergulho não vai ser evitado  por muito tempo. Nos últimos dias tem chovido muito, então é possível que o nível fluvial também tenha aumentado e os fluxos de água não são pacientes.
  Então vou esvaziar o barco de flores e carregá-lo até as margens do rio, ficarei nele até ter condições de entrar sozinha na água. Vou arrastar os corpos dos mortos até o meio e, se as águas estiverem incontroláveis, é possível que sejam levados pela correnteza. Depois, subo, nado, resisto e, cansada, sinto a água limpar até os meus dedos sujos de decisão. O baile, o banho, a água calma e os fluxos ferozes, o mergulho, todos  acontecem num instante, mas se repetem todos os dias.


sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Por onde passa o teu coração que já não faz mais barulho perto da minha porta

   Por onde passa a água daquele rio, que lavava as roupas que você nunca mais usou, que só em fotos antigas sobreviveram limpas? Passa por onde o caudaloso rio que molhava os pés das crianças, teus irmãos, em cima dos cavalos, corrente de água que puxava-os com toda força e eles resistiam? Por onde passa a sinuosa e barrenta curva, cujas margens tomadas pelas raízes seguras deram a vida de volta ao teu pai afogado?
  Por onde passa o silêncio longo do deserto no inverno, que nem a chuva alcançava? 
  Por onde passa o começo das noites de escuro amarelo da lâmpada fraca que atraía os insetos e quase nada iluminava?
  Por onde anda a tua saudade que não se comunica mais com a minha que, independente, vive de outras imagens que talvez não se pareçam com as quais eu me impregnei para você se lembrar quando quisesse? Me cobri da vida que era tua, para que você nunca a perdesse. Mas, e agora, por onde passa a tua memória, já que não por mim?

   Por onde passa a avenida que tua vida construiu longe da minha casa? Tem os mesmos postes de luz dos teus sonhos que eu conheci ou sonhou com outros, inimagináveis em mim?
   Por onde passa o prédio alto em que você decorou um apartamento todo cinza, com vidros transparentes e tapete de trama industrial que nenhuma mão tocou?
  Por onde passam as pessoas da casa antiga, que não estendem mais as roupas num varal comprido, não molham as plantas, não aparam a grama ou chegam com os seus rostos miúdos por entre as grades da janela, quando batem palmas? Por onde passa o teu medo de não as ver mais? Ainda o tem ou a coragem o libertou das familiares faces?
  Por onde passa a tua covardia, agora que não a revela mais para mim? A quem diz, quando está vazio? Há um alguém para isso?

  Por onde passam as deidades dos domingos que nos amedrontavam e nos acolhiam, num mesmo banco, lado a lado? Por onde passa a nossa fé, agora que nenhum de nós canta mais o hino na língua que nos ensinaram? Por onde jorram as águas dos batismos, os incensos dos dias de meditação e penitência, as pétalas macias das coroações as quais não assistimos mais? Por onde anda a tua alma que não compartilha mais os ritos, não se comove com os textos, não se abre para o não-visível? Quando tem uma dor sem remédio, você ainda chama alguém, olhando para o céu? Ou saca uma receita da sua gaveta e, anestesiado, dorme para não chorar? O mistério ainda o estimula ou só angustia? 

  Por onde passam as mulheres que trabalhavam na fábrica de malhas que fechou? Que postos ocupam agora, ainda serão passadeiras, arrematadeiras, debrunhadeiras?  E a mulher que não sabia fazer outra coisa que camisetas, tem notícias dela? Por onde passam as pessoas que passavam por nós e não passam mais? Ou nós é que deixamos de passar por elas?
  Por onde passa a tua memória olfativa, que cheiro tinha a casa que você morava, a tua mãe, a tua avó, que cheiro tinha o teu quarto, quando apagavam as luzes amarelas? O cheiro tinha mais força, quando as imagens eram silenciadas? Que cheiro tinha a alegria? Tinha um cheiro, não tinha? Se lembra ainda? Para você também ou é só para mim que o mundo é um mercado popular tomado por aromas?

  Por onde passa a paixão arrebatadora, dolorida e, também, redentora que não bate mais por quem achávamos que nunca cessaria? Por quem bate, agora, então? Pelo homem meio estrábico do escritório ao lado, pelo vizinho castanho ou pelo gentil par de dança que chegou no mês passado e nunca pisou no teu pé?  Por todos ou nenhum? Como ter a certeza de que ainda baterá por alguém? Do mesmo jeito ou de um outro modo? Se menos intenso e caloroso, ainda valerá a pena? Como saber se não é uma invenção para distrair-nos da verdade? Não é tarde para arriscarmos? Ainda podemos ir, nos entregarmos e cairmos, se for o caso, e voltarmos saudáveis, de novo, sem grandes sequelas? Você aprendeu a resposta?

  Por onde passa a tua mão, agora? Que cinturas, silhuetas e curvas, elas descobrem? Que cabelos afagam, que outras mãos apoiam?
  Por onde passam os fios grossos dos teus cabelos, que fronhas eles invadem, que ralos entopem, em que pentes e pias eles se perdem?
  Por onde a tua ilusão passa, agora que você é quem gostaria de ser? Por onde os teus novos sonhos viajam, se o rio não tem mais a água que afogava e salvava teu pai, molhava os pés dos teus irmãos, lavava tua roupa com a espuma das mãos da tua mãe e regava tua esperança de voo?
 Por onde passa os incêndios dos teus amores, as dúvidas da tua fé, o silêncio das tuas noites e os cheiros da tua memória, se você não se lembra de quem as guardou para você?

  Por onde passa o que eu sou, quem eu quero ser, se eu sempre me ocupei de lembranças, histórias, dores e confissões que não eram minhas, para devolvê-las, quando precisassem? O que eu faço com aquilo que eu deixo vazio para caber tudo do outro, depois que preenchem, buscam quando podem?   Por onde passa a minha abandonada saudade, que quase não se encontra mais com a sua, e que precisa ser inteira, devolvida para si novamente?
  Por onde passa o teu coração que já não faz mais barulho perto da minha porta, mas que me chamou para sair de casa tantas vezes e que, por isso, eu aprendi a gostar de ser livre?  Por onde passa o teu legado sentimental que alargou o lugar dos meus afetos para caberem os seus? A tua história é só tua; toma.  O meu espaço vazio precisa ser do que é meu, agora.




domingo, 7 de janeiro de 2018

O outro mundo que não vemos

  Há um universo  invisível pelo qual passamos todos os dias e que, talvez, seja ele justamente esse muito que nos sustente. Conjunto de coisas ignoradas que ilumina a nossa existência,  espaço onde as nossas vozes ecoam, a manivela que conduz os nossos passos, a força que alimenta os nossos movimentos e que enche os nossos olhos de orgulho e esperança para nos manter visíveis neste mundo que conhecemos.
  Existe um mundo desperdiçado em beleza e aprendizado; um mundo do qual participamos sem saber, atravessamos sem entender, impactamos sem nos responsabilizar. Um  mundo outro que talvez nos ampare neste que vemos, tentamos entender e ao qual chamamos de nosso, como se fôssemos os únicos a fazer parte dele ou, até, que seja ele quem nos obedeça, com a nossa ciência, história e cultura herdadas. Achamos pertencer a um mundo e termos ele, porque desconhecemos outros tantos.

  Cotovelos se esbarram na loja de conveniência e os olhos não alcançam os outros olhos, almas forjadas em mesmas leituras, músicas, desejo de luta e sonhos que trafegam os mesmos caminhos, mas que nunca se declaram, porque não sabem uma da outra. Numa papelaria, um mesmo caderno de capa de couro passa pelos dois pares de mãos, nenhum dos dois o leva, mas uma mão esteve sobre a outra por alguns segundos sem nunca saber.     
  Dois carros se cruzam no trânsito da cidade finita e em cada um deles uma dor de mesmo porte que poderia ser suavizada se não fosse o desconhecimento dos motoristas dos carros com vidros enegrecidos e fechados sobre bancos que não são os seus. Pontes, macas de hospitais, cadeiras de cinemas, elevadores, escadas rolantes e de emergência, pontes, calçadas, filas no banco, correios,  uma figura desconhecida no fundo de uma foto nossa, um arquipélago de encontros que acontecem sem que as personagens possam ver. Estamos lá e eles também estão, mas é um mundo de invisibilidade e cegueira ignorada.

  Caminho na calçada do outro lado da rua  de um edifício sobre o qual quase nada sei, só que existe, tem quatro andares e é amarelo. Instalado na janela do andar mais alto um homem que reflete, na manhã de domingo, sobre aquilo que pode ver. Eu não olharia mais vezes para a figura se não visse, tão concentrado quanto ele, três pombas sobre o seu telhado, na mesma direção que o homem. Os quatro movimentos de pescoço estão perfeitamente sincronizados, as pombas e o homem movem suas cabeças num mesmo sentido, num mesmo segundo. Os quatro olhares iluminam alguma paisagem que, do lugar onde estou, eu não posso saber, porque estou limitada pela minha visão atada ao solo.

  Olho para os quatro e tento compreendê-los. A expressão do homem eu até posso ler, não é grave, sem susto ou encantamento, é pacífica e, talvez, um pouco entediada. Mas as expressões das pombas passam ao largo do meu entendimento; as enigmáticas pombas parecem olhar para os mesmos pontos que o morador do prédio baixo da avenida esvaziada aos domingos, mas são pombas, com olhos de pombas, numa altura superior ao do homem e à minha e não esboçam reações que eu possa ler.
  As pombas são um outro mundo que eu desconheço. Mas eu as vejo, diferente do homem que compartilha com outros três seres de uma mesma visão e não sabe.

  Do alto da sua janela amarela um homem olha um mundo abaixo dos olhos das pombas, um mundo onde elas não estão, em que elas não existem, porque ele não pode vê-las. O que as pombas veem e homem não pode? Elas sabem dele, enxergam o topo da sua cabeça e, distraído, ele acha que está só.
  De repente, passo sob a visão do homem, ele me vê, mas não enxerga, sabe de mim, mas me desconhece completamente. Ele vê uma mulher de malha na manhã de domingo e eu vejo um homem com uma xícara numa janela amarela com três pombas ignoradas sobre o seu telhado. As pombas também se voltam para mim e eu não sei o que elas podem ver. Mais? Menos do que o homem? O que as pombas pensam sobre mim? Somos cinco seres partilhando uma geografia, mas não um mesmo universo.

  Eu também pousei sobre um telhado e vi uma mulher amar sem medida e não ser compreendida, correspondida, minimamente, com a elegância e o afeto que todo ser vivente disposto e apaixonado merece, mas ela não sabe que eu estou sobre a sua cabeça. Eu sou a sua pomba, companhia do seu tédio de domingo e nada posso fazer além de olhar seu amor desacompanhado, caminhando para uma solidão terrível, que é esta: a de amar ilimitadamente a quem cujos olhos estão noutra direção. Sou uma pomba no telhado de uma mulher, um animal  sem arrulhos, sem manifestações, só olhos vidrados e fidelidade de presença.

  Um homem pousado na janela amarela do apartamento no alto de um prédio e a sua ignorância sobre as pombas no seu telhado; uma mulher andando pela avenida, contemplando quatro seres no alto de um prédio e se perguntando sobre o que não é visível, mas devia ser. Como alcançar o que só as pombas veem? O homem acha que olho para ele, olho também é verdade, mas sinto terrivelmente pela sua ignorância sobre os outros mundos, tenho pena da nossa limitação humana.
  O que a pomba sobre a minha cabeça vê e não me comunica? Nunca saberei, nunca saberemos. Mas o outro mundo que não vemos é aquele único que me interessa.